Ponderações sobre a Venezuela: entre o princípio moral e a realidade do poder
Existe uma explicação breve, desconfortável e comumente negada para a situação atual venezuelana: o poder real continua sob controle do chavismo militarizado, não da oposição civil. Durante transições complexas, principalmente aquelas caracterizadas por deterioração institucional, possibilidade de confrontos e desintegração estatal, as negociações ocorrem prioritariamente com quem tem capacidade de controlar ou provocar o caos, não com quem possui legitimidade ética ou apoio nas urnas. Este é o pragmatismo implacável da política concreta, e desconsiderá-lo geralmente resulta em mais decepção que transformação.
Neste panorama se entende a participação de Delcy Rodríguez nos diálogos. Não por afinidade ideológica, concessão moral ou validação política, mas por conveniência estratégica. Delcy serve como conexão para a manutenção básica do aparato estatal venezuelano: órgãos governamentais, PDVSA, setor financeiro, instalações portuárias, redes de distribuição. Sem esta estrutura administrativa operante, o país rapidamente se paralisa, intensificando a crise social e humanitária. Adicionalmente, ela possui comunicação direta com o centro do regime — militares, serviços de inteligência e grupos armados paralelos — não como autoridade máxima, mas como articuladora capaz de transmitir instruções, reunir informações e facilitar acordos. Em processos transitórios, esta habilidade de proporcionar resultados tangíveis é mais relevante que retórica adequada ou posturas eticamente irrepreensíveis.
A comparação com María Corina Machado é difícil, porém necessária. María Corina tem legitimidade política, respaldo popular e compromisso democrático, mas não domina armamentos, territórios ou infraestrutura, nem pode assegurar que o período pós-ruptura não será violento. Em momentos de confrontação, estes elementos são mais determinantes que votos ou princípios morais. Existe ainda um fator crucial: para o núcleo chavista, ela representa uma ameaça à sua existência. Sua participação imediata no processo impediria qualquer diálogo inicial, pois impossibilitaria estabelecer confiança mínima para limitar o conflito. Não se trata de desvalorizá-la, mas de identificar quando sua liderança é apropriada — e quando não é.
Edmundo González, por outro lado, ocupa uma posição intermediária. Representa um símbolo eleitoral, uma personalidade de consenso civil e institucional, mas não um operador do poder efetivo. É adequado para a fase posterior do processo, quando a prioridade deixa de ser apenas evitar o colapso e passa a ser reconstruir o Estado. Não é quem extingue o incêndio; é quem auxilia na reconstrução posterior.
A história demonstra que transições políticas raramente seguem o caminho idealizado pelas forças democráticas. Geralmente progridem em três etapas. Inicialmente, o controle do caos, quando se dialoga com aqueles que controlam os meios de coerção e conhecem os pontos vulneráveis do sistema. Em seguida, a reorganização do poder, com a incorporação progressiva de civis, especialistas e figuras politicamente aceitáveis. Apenas no final surge a fase de legitimação, com eleições, discurso democrático e lideranças capazes de expressar a vontade popular. Alterar esta sequência frequentemente resulta no fracasso do processo.
O equívoco emocional mais comum é supor que, uma vez debilitado ou vencido o regime autoritário, o poder automaticamente se transfere para “os justos”. A realidade é menos consoladora. Primeiro governam aqueles que conseguem impedir a desintegração nacional. Depois, os que são capazes de administrar o Estado. Somente então, aqueles que podem representar politicamente a sociedade. Esta progressão não é justa, mas é recorrente.
Isto não significa que María Corina Machado esteja excluída do cenário. Significa apenas que ela não é a protagonista desta fase. Provavelmente será a figura central da próxima etapa, aquela que proporciona legitimidade política e credibilidade democrática ao processo. Forçar sua participação agora seria como tentar realizar eleições durante um incêndio florestal. Contudo, se ela for permanentemente afastada do horizonte político, aí sim existirá uma clara indicação de que a transição fracassou.
Sem idealizações, o cenário provável é simples e severo: hoje se dialoga com Delcy, amanhã com os civis, depois com a nação. A história raramente começa onde desejaríamos, mas invariavelmente impõe um alto custo a quem se recusa a compreender como o poder realmente funciona.
Fonte: https://veja.abril.com.br/coluna/murillo-de-aragao/primeiro-delcy-depois-democracia/





