Em política, porém, tudo pode acontecer. Até mesmo nada de mais

PASSAMOS do meio de agosto e, até agora, tudo bem. Os ventos não ultrapassaram intensidade razoável, parte expressiva da sociedade civil se manifestou a favor da democracia e os poios de atrito entre Executivo e Judiciário parecem ter acalmado as suas narrativas. Como o Brasil é imprevisível, a trégua pode durar pouco ou apenas o suficiente para chegarmos ao 7 de Setembro em bom estado institucional.

No entanto, é difícil crer que o ambiente eleitoral seguirá sem turbulências, dado o nível de polarização da disputa entre o presidente Jair Bolsonaro (PL) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O saldo acumulado de energias políticas é negativo, e o desejo de cada um de vencer é exacerbado. Para piorar, as escolhas são negativas, baseadas na rejeição aos candidatos que lideram por ora as pesquisas eleitorais.

Basicamente, o que mais preocupa nas próximas semanas envolve as comemorações do Bicentenário da Independência, em 7 de setembro. Nesse caso, o pior cenário seria a ocorrência de algum tipo de insurreição pontual nas ruas, com violência contra instituições públicas. O melhor cenário seria tudo correr dentro de uma necessária e desejada tranquilidade.

As possibilidades, porém, estão apontando para algum tipo de cenário intermediário, com manifestações que poderão lançar mão de narrativas anti-institucionais, mas sem protestos violentos. Por que esse cenário intermediário é o cenário básico? Primeiro, porque tumultos prejudicariam Bolsonaro, que poderá vir a se aproveitar eleitoralmente de amplas e pacificas manifestações a seu favor. Segundo, porque Lula e seus militantes não parecem ter o poder de mobilização para enfrentar os militantes bolsonaristas, o que, a princípio, afasta o cenário de grandes confrontos. O terceiro aspecto é que governadores que disputam a reeleição não querem ser acusados de omissos, caso ocorram graves desordens em seus estados. Isso vale para São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, os principais colégios eleitorais do Brasil.

“A prudência indica que todos devemos trabalhar para o melhor, mas estar preparados para o indesejável”

O quarto aspecto é que o comando do Supremo Tribunal Federal, nas mãos do ministro Luiz Fux até 12 de setembro, está atento e atuando para mediar o diálogo institucional, de forma a manter a paz entre os poderes.

O quinto aspecto é que as Forças Armadas, em sua esmagadora maioria, estão comprometidas com a constitucionalidade e o respeito às leis.

A combinação desses cinco vetores aponta para perspectivas moderadamente positivas. O que trabalha contra, como mencionei, é o saldo de energias negativas acumulado por embates políticos e jurídicos, narrativas agressivas e anti-institucionais e agressões verbais inadequadas ao ambiente democrático, no qual a maioria dos brasileiros deseja viver.

Em política, porém, tudo pode acontecer. Até mesmo nada de mais. A prudência indica que todos devemos trabalhar pelo melhor, mas estar preparados para o indesejável. Sobretudo devemos valorizar o que construímos em termos de avanços sociais e econômicos e enfrentar os desafios que nos atrasam.

O mundo anda estranho. Desde a pandemia de Covid-19, tivemos a guerra na Ucrânia, os surtos inflacionários, a crise dos combustíveis e a varíola dos macacos. Não queremos que o Brasil engrosse a lista global de episódios exóticos e repudiáveis. Os brasileiros devem cuidar do Brasil com responsabilidade. Principalmente os formadores de opinião e os eleitores.

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